O ANTROPÓLOGO

Abril 5, 2008

Precisa-se de matéria prima para construir um País

Filed under: Portugal — jorgeantropologo @ 4:58 pm
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Eduardo Prado Coelho – in Público
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por issocomeço a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foiSantana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós.Nós como povo.
Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a umpaís onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais doque o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtudemais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeitoaos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornaisjamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedorasparticulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa,como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudoo que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos …. e paraeles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertasporque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde sefrauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depoisreclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pelaleitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”)e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovarprojectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classemédia e beneficiar alguns. Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
Um país no qual aprioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
Um país ondefazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossosgovernantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontemcorrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digoo quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar deque ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, oque me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.
Como “matéria prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas faltamuito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Essesdefeitos, essa “CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que éreal e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS.
Nascidos aqui, não noutra parte… Fico triste. Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que osuceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria primadefeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazernada… Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor,mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio doterror? Aqui faz falta outra coisa.
E enquanto essa “outra coisa” nãocomece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou docentro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmentecondenados, igualmente estancados….igualmente abusados!
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação,então tudo muda…
Não esperemos acender uma vela a todos os santos,a ver se nos mandam um messias.Nós temos que mudar.
Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro… Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos efrancamente tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir)que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO. E você, o que pensa?…. MEDITE!
EDUARDO PRADO COELHO

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